ô senhor, eu fracassei
nos doze trabalhos de hércules
mas, senhor, eu não sou hércules
como os poderia cumprir?
que sejam breves os tempos difíceis
que passem rápido as dores de parto
para que possas logo embalar teu filho
cantando canções de ninar
que te cantavam teu pai
(teus ombros suportam o mundo)
e contar estórias antigas
que no tempo de eu menino
rosa vinha me contar
Peça a Deus chuva
nos tempos da primavera
quando o céu for sem nuvens
peça a Deus chuvas copiosas
Tenho lutado lutas de Deus
mas eu não sou Deus
eu sou homem
não! você é bicho, Fabiano!
(Teus ombros suportam o mundo)
que sejam breves os tempos difíceis
tome aguardente, algumas doses
não tenha vergonha de chorar suas dores
os homens também choram.
você reclama de seus pais
das empresas estatais
do governo e da sua sogra
meus fantasmas são iguais
escondidos por detrás
prontos para entrar
por essa porta.
mas nas próximas eleições
se houver reencarnação
ou se você ficar viúvo
então resolve tudo.
O problema é a inflação
a burocracia e o IPTU
É o fim do mundo!
Você reclama que a cama
é dura para dormir
que o governo nos engana
então vote em mim
se a coisa não melhora
vamos dá o fora
para longe daqui!
há contratos em Saturno
para polir os anéis de Saturno
vamos dá o fora do mundo
para ser feliz
mas depois a gente cansa
de polir os anéis de Saturno
pois Saturno ficou cheio
de marcianos intrusos
aí não tem outro jeito
coca cola com rum
afoga a dor do peito
vamos para luas de júpiter
que a vida ficou uma droga
não tenha medo de chorar
os homens também choram.
sábado, 24 de setembro de 2011
confissões de santo nenhum
De mim é importante que se saiba
minha alergia a crustáceos
e a açafrão.
Nunca tive um infarto
mas sempre mesma dor
de coração.
Sempre carreguei amor -
ilusão!
No final o que sobra
(ponho a mão no bolso)
recordação.
Tiro a angústia do bolso
e a contemplo na mão.
Mas no fundo do poço
haverá outro fundo ainda?
Um chão depois do chão?
Pego a água do poço
mas me escorre da mão!
minha alergia a crustáceos
e a açafrão.
Nunca tive um infarto
mas sempre mesma dor
de coração.
Sempre carreguei amor -
ilusão!
No final o que sobra
(ponho a mão no bolso)
recordação.
Tiro a angústia do bolso
e a contemplo na mão.
Mas no fundo do poço
haverá outro fundo ainda?
Um chão depois do chão?
Pego a água do poço
mas me escorre da mão!
sábado, 26 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011
Corpo e Cristianismo
CORPO E CRISTIANISMO
O corpo na contemporaneidade é exaltado a ponto de as identidades serem definidas em função de certa retomada de um vitalismo difuso na forma de uma estética da boa saúde e da boa forma. Em certo sentido este fenômeno é uma “invenção” da Cultura Somática ocidental graças aos últimos avanços das ciências, sobretudo da biologia e da informática. Estas passaram a exercer forte impacto sobre o “imaginário” do corpo e, consequentemente, da investigação e da compreensão hodierna a respeito da condição carnal do ser humano. Entretanto, apesar da hipervalorização do corpo associada ao advento do “indivíduo” em detrimento da pessoalidade do ser humano, o fenômeno cultural anuncia certo paradoxo. De um lado o corpo nunca esteve tão em voga ou em evidência se comparado a outras épocas e outras culturas. De outro, a cultura contemporânea corre o risco de reduzir o corpo à mera condição performática e de interpretá-lo a partir de uma estética objetal em que seus aspectos exteriores suplantam a fecundidade da interioridade vivida e sentida bem como a socialidade ou a narratividade da condição humana encarnada.
O cristianismo, por sua vez, identifica-se a uma religião no sentido eminentemente simbólico que a palavra comporta enquanto realidade capaz de religar (religare) o real. Nele, o humano e o divino se aproximam de maneira inédita e se significam graças ao que se denomina de Evento Cristo. Pelo fato de a Encarnação do Filho de Deus (Jo. 1,1) ser considerada eixo central da confissão de fé cristã, o cristianismo anuncia uma autência revolução a respeito da experiência humana do corpo na medida em que enaltece a carnalidade como lugar da experiência “de” Deus. Para o cristianismo, o Deus de Jesus revela-se ao mesmo tempo em que assume a humanidade desde a encarnação do Verbo. Nesta perspectiva o cristianismo é avesso aos neodualismos que repovoam o imaginário do corpo e do sexo do homem da cultura somática contemporânea.
Portanto, o corpo é considerado lugar por excelência no qual o Deus dos cristãos experimenta a humanidade por dentro. Ele contrái com a humanidade uma cumplicidade corpórea tal a ponto de tornar a carne humana lugar da revelaçao da interioridade do próprio Deus. Na perspectiva cristã o simbolismo do corpo excede toda a significação anterior: em Jesus de Nazaré o Verbo se faz carne reconciliando o humano e o divino sem separação e sem confusão, sem, contudo perder sua mundaneidade, isto é, sem qualquer traço de espiritualismo abstrato e desencarnado. Em termos antropológicos, significa dizer que o Verbo (palavra) assume a carne humana para que nossa humanidade se torne um “corpo de carne”, isto é, que o corpo não seja privado de transformar-se numa carnalidade humano-divina. Nesse sentido, referir o humano à carnalidade significa outrossim voltar-se à significação genuinamente humana do corpo que só a carne pode assegurar. A carne, portanto, assume a significação que transcende os aspectos meramente exteriores do corpo humano, sem contudo negar sua dimensão material.
A visão do cristianismo coincide, em certo sentido, com aquilo que a corrente filosófica da Fenomenologia propugna quando trata de recuperar o sentido do humano em função da significação filosófica da corporeidade. A saber, mais do que uma realidade biológica, genética, neurológica, morfológica ou do corpo reduzido a um conjunto orgânico bem articulado, a corporeidade diz respeito à própria identidade do ser humano e, por isso, visa a superar qualquer visão objetivista ou pragmática que tenda a reduzir o ser humano a uma coisa. Contra a visão do racionalismo ou do empirismo que de tempos em tempos voltam à baila no cenário da cultura contemporânea, a Fenomenologia insiste no caráter fenomenológico e ontológico do corpo. Por isso, sua preocupação em afirmar que o ser humano não apenas “tem” um corpo, mas de que ele “é” seu corpo: um corpo próprio, um corpo-sujeito, um corpo vivido e um corpo-relação. Uma vez inserido e jogado no âmbito das significações da vida - para o qual o corpo expressa a única possibilidade de o sujeito estar no mundo - o ser humano-corpo vê-se constantemente afetado, tocado e até mesmo alterado em sua própria identidade. O ser humano enquanto corpo, embora gerado de outrem e, portanto, como dom, percebe-se ao mesmo tempo como tarefa: graças à experiência de se fazer carne “no” mundo (vivido) e tornar-se carne “do” mundo, ele assume a dimensão carnal como constitutiva de realização plena de sua humanidade.
Graças à visão do corpo de que partilha o cristianismo, é possível dizer que ele é um autêntico humanismo da encarnação. Afinal, enaltece a carne como lugar da morada de Deus entre os seres humanos e afirma-se como um elogio à carne ao considerá-la como lugar da humanização da humanidade em Deus.
O cristianismo, por sua vez, identifica-se a uma religião no sentido eminentemente simbólico que a palavra comporta enquanto realidade capaz de religar (religare) o real. Nele, o humano e o divino se aproximam de maneira inédita e se significam graças ao que se denomina de Evento Cristo. Pelo fato de a Encarnação do Filho de Deus (Jo. 1,1) ser considerada eixo central da confissão de fé cristã, o cristianismo anuncia uma autência revolução a respeito da experiência humana do corpo na medida em que enaltece a carnalidade como lugar da experiência “de” Deus. Para o cristianismo, o Deus de Jesus revela-se ao mesmo tempo em que assume a humanidade desde a encarnação do Verbo. Nesta perspectiva o cristianismo é avesso aos neodualismos que repovoam o imaginário do corpo e do sexo do homem da cultura somática contemporânea.
Portanto, o corpo é considerado lugar por excelência no qual o Deus dos cristãos experimenta a humanidade por dentro. Ele contrái com a humanidade uma cumplicidade corpórea tal a ponto de tornar a carne humana lugar da revelaçao da interioridade do próprio Deus. Na perspectiva cristã o simbolismo do corpo excede toda a significação anterior: em Jesus de Nazaré o Verbo se faz carne reconciliando o humano e o divino sem separação e sem confusão, sem, contudo perder sua mundaneidade, isto é, sem qualquer traço de espiritualismo abstrato e desencarnado. Em termos antropológicos, significa dizer que o Verbo (palavra) assume a carne humana para que nossa humanidade se torne um “corpo de carne”, isto é, que o corpo não seja privado de transformar-se numa carnalidade humano-divina. Nesse sentido, referir o humano à carnalidade significa outrossim voltar-se à significação genuinamente humana do corpo que só a carne pode assegurar. A carne, portanto, assume a significação que transcende os aspectos meramente exteriores do corpo humano, sem contudo negar sua dimensão material.
A visão do cristianismo coincide, em certo sentido, com aquilo que a corrente filosófica da Fenomenologia propugna quando trata de recuperar o sentido do humano em função da significação filosófica da corporeidade. A saber, mais do que uma realidade biológica, genética, neurológica, morfológica ou do corpo reduzido a um conjunto orgânico bem articulado, a corporeidade diz respeito à própria identidade do ser humano e, por isso, visa a superar qualquer visão objetivista ou pragmática que tenda a reduzir o ser humano a uma coisa. Contra a visão do racionalismo ou do empirismo que de tempos em tempos voltam à baila no cenário da cultura contemporânea, a Fenomenologia insiste no caráter fenomenológico e ontológico do corpo. Por isso, sua preocupação em afirmar que o ser humano não apenas “tem” um corpo, mas de que ele “é” seu corpo: um corpo próprio, um corpo-sujeito, um corpo vivido e um corpo-relação. Uma vez inserido e jogado no âmbito das significações da vida - para o qual o corpo expressa a única possibilidade de o sujeito estar no mundo - o ser humano-corpo vê-se constantemente afetado, tocado e até mesmo alterado em sua própria identidade. O ser humano enquanto corpo, embora gerado de outrem e, portanto, como dom, percebe-se ao mesmo tempo como tarefa: graças à experiência de se fazer carne “no” mundo (vivido) e tornar-se carne “do” mundo, ele assume a dimensão carnal como constitutiva de realização plena de sua humanidade.
Graças à visão do corpo de que partilha o cristianismo, é possível dizer que ele é um autêntico humanismo da encarnação. Afinal, enaltece a carne como lugar da morada de Deus entre os seres humanos e afirma-se como um elogio à carne ao considerá-la como lugar da humanização da humanidade em Deus.
possui mestrado em Teologia Moral pela Pontificia Università Gregoriana (1993), doutorado em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (1999). Tem experiência na área de Teologia, com ênfase em Ética Fundamental e Ética da Sexualidade. Está chegando à UNICAP, onde deverá também colaborar no Mestrado em Ciências da Religião.
quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
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