sexta-feira, 5 de setembro de 2014

Crianças e[m] Filmes de Terror

Se a criança é sinal e símbolo de pureza e inocência, é perturbador imaginar que uma criança possa ser má. Esse tipo de perturbação já foi inclusive explorado em alguns filmes do gênero de terror, como, citando os clássicos desse gênero, os filmes da série Colheita Maldita (Children of Corn, o primeiro filme da série é de 1984), e Quién puede matar a un niño? (1976), e mais recentemente The Children (2008). Muchembled, na sua Uma História do Diabo (2001, p. 367-380), faz uma longa lista de filmes do “Cinema do Diabo”. Na introdução de seu livro, onde discute o seu próprio procedimento de pesquisa, afirma que “A cultura é um tecido riquíssimo, que precisamos examinar com a máxima atenção em todos os seus fios. (...) Lugar de destaque foi dado à sétima arte, reservatório imenso de formas e oficina permanente, em que se vêem incessantemente retocadas as tramas de nossas crenças” (MUCHEMBLED, 2001, p. 10, nota da p. 11)
O último[1], de Tom Shankland, teve repercussão menor, é nossa opinião pessoal, do que merecia sua direção e roteiro; nele, ambientado em uma fazenda onde familiares se reúnem para o Natal, as crianças se reúnem sem motivo aparente objetivando eliminar todos adultos. Com o decorrer do filme sugere-se de que se trata de uma espécie de epidemia que na cena final parece ter dimensões mundiais.
Boa repercussão teve o filme Colheita Maldita[2] (1984), do diretor Fritz Kiersch, gerando continuações.  Com certeza esse é o mais popular filme do subgênero “terror com crianças”. Inspirado num conto de Stephen King, autor e que é recorrente relacionar religião e terror, nesse filme, liderados por um garoto pregador chamado Isaac, meninos e meninas praticam um culto no milharal e chacinam os adultos da pequenina cidade de Gatlin, no Nebraska. A violência das crianças explica-se, portanto, pelo fanatismo religioso.
No entanto, provavelmente o mais aterrador filme desses até aqui citados seja Quién puede matar a un niño? (1976), do diretor Ibañez Serrador. Possivelmente inspirado em Alfred Hitchcock[3], Serrador cria uma atmosfera bastante sombria nesse filme valendo-se do constante silêncio e do olhar fixo dos grupos de crianças[4] sobre o casal de turistas, Tom e Evelyn, que chega a ilha para aproveitar as férias. O casal termina encurralado e atrozmente trucidado pelas crianças. O título parece sugerir que a grande arma das crianças seja justamente seus rostos angelicais que desencoraja qualquer reação ou desconfiança dos adultos.
Também tem sido explorado pela sétima arte a figura da “criança diabólica”. Como no filme Caso 39 (Case 39, 2009), de Christian Alvart, em que uma assistente social decide adotar a menina Lilith, de dez anos, após os pais perderem a guarda acusados de maus tratos. No decorrer do filme a menina revela-se não humana, um demônio. Clássicos que exploraram essa imagem são A Profecia (The Omen, 1976), de Richard Donner, e O Bebê de Rosemary (Rosemary’s Baby, 1968). Ambos nutrem-se do imaginário de que o Diabo queira ter um fiho sobre a terra.
O mais aclamado filme de terror, O Exorcista (1973), que baseado no livro de William Peter Blatty, a produção dirigida por William Friedkin conta a história de Regan (vivida por Linda Blair), uma menina que de um dia para o outro acaba sendo possuída por um demônio. Em O Exorcista, vemos a angústia de uma mãe ao ver sua filha passar por vários exames sem que nenhuma doença seja diagnosticada. A conclusão a que ela chega, no contexto do filme, parece óbvia: é uma possessão. Uma grande angústia do doente é não saber o seu diagnóstico, não saber contra o que luta. É necessário ‘dar um nome aos bois’. Na impossibilidade de se aceitar que a criança seja má, afirma-se que ela está “possessa”.
Para Luther Link, professor da Universidade de Aoyama Gakuin, em Tóquio, autor de "O Diabo - a máscara sem rosto", em reportagem a João Ximenes Braga:

"O diabo é presente agora pela mesma razão que o foi por séculos. Explicar o mal, casos como o de uma criança que mata outra, é uma dor de cabeça que ninguém quer. Talvez falar que o criminoso teve uma infância difícil seja uma resposta mais comum hoje, mas para a Igreja e todos nós, o diabo ainda é a explicação mais fácil." (BRAGA, 2001, p. 3).

Assim, na dificuldade de se aceitar que uma criança seja má, explica-se que, na verdade, o mal está nela.



[1] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=4bR1JYtsY-0 Acesso em 05/09/14.
[2] Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=vwgKyXP58_w Acesso em 05/09/14.
[3] O filme faz lembrar Os Pássaros (1963), no qual criaturas inofensivas atacam repentinamente e sem explicação.
[4] Em O Albergue (2005), Eli Roth parece aludir a esse filme nos grupos de crianças que perambulam sempre juntas crianças na cidade eslovaca onde os protagonistas serão trucidados. 

sexta-feira, 14 de março de 2014

pensemos nos leprosos deste mundo




Jesus e São Francisco nos inspiram a nos aproximarmos dos leprosos da nossa sociedade






Evangelho de Marcos 

Mt 8.1-4; Lc 5.12-14

1.40 Aproximou-se dele um leproso,* que lhe suplicou, de joelhos: Se quiseres, podes purificar-me.

1.41 Jesus, movido por compaixão, estendeu a mão, tocou-o e disse: Quero; fica purificado.

1.42 Imediatamente a lepra desapareceu, e ele ficou purificado.

1.43 E, advertindo-o severamente, Jesus logo o mandou embora,

1.44 dizendo-lhe: Olha, não digas nada a ninguém. Mas vai mostrar-te ao sacerdote e oferece pela tua purificação o que Moisés determinou, para que lhes sirva de testemunho.

1.45 Ele, porém, saindo dali, começou a tornar público o que havia ocorrido e a divulgá-lo por toda parte. Desse modo, Jesus já não podia entrar abertamente numa cidade, mas ficava fora, em lugares desertos. Mesmo assim, as pessoas iam até ele, vindas de todos os lugares.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

CIÊNCIAS DA RELIGIÃO: MENINO DEUS

CIÊNCIAS DA RELIGIÃO: MENINO DEUS: Quando pequeno, na época de Natal, visitava a casa de uma tia e me sentava sempre para observar o presépio montado na sala, rico em detal...

quarta-feira, 13 de novembro de 2013

Algumas citações sobre tolerância






"A tolerância torna a diferença possível,; a diferença torna a tolerância necessária" Miachael Walzer, Da Tolerância . . . .

"Hoje podemos ter uma certeza teológica: que o verdadeiro Deus jamais autorizou guerras" Inácio Strieder, O Exercício da Tolerância] . . . .

"para ser tolerante é preciso fixar os limites do intolerável" Inácio Strieder, Os limites do Intolerável . . . .




E A Prece pela Tolerância de Voltaire:

CIÊNCIAS DA RELIGIÃO: A IGREJA QUE ESTÁ EM TUA CASA

CIÊNCIAS DA RELIGIÃO: A IGREJA QUE ESTÁ EM TUA CASA: Aracaju amanheceu com chuva. Incômodo para os que pretendiam ir para praia. Sigo para casa de Dona Josefa da Costa, Dona Nitinha, como é c...

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

CIÊNCIAS DA RELIGIÃO: O DIABO SOLTO NA TELA

CIÊNCIAS DA RELIGIÃO: O DIABO SOLTO NA TELA: Podemos dizer que o diabo é mesmo uma figura bem popular, aparecendo em filmes de grande bilheteria e sucesso, como foi o caso do filme “O Exorcismo de Emily Rose” (2005), “O Exorcista – o início” (2004) e “O Ritual” (2011), para citar os sucessos cinematográficos relativamente recentes. Podemos mesmo concordar dizendo que O diabo é pop, título que João Ximenes Braga deu a uma de suas reportagens no jornal O Globo (3/1/2001). Aliás, se concordarmos com Raul Seixas “enquanto Freud explica as coisas/ o Diabo fica dando uns toques/ o Diabo é o pai do rock” (Rock do Diabo). Já Zeca Baleiro canta: “O cara mais underground que eu conheço é o Diabo” (Heavy Metal do Senhor). O primeiro filme onde o personagem apareceu foi O Castelo do Diabo (Le Manoir Du Diable), de 1896, de Georges Mélies. Muchembled, na sua Uma História do Diabo (2001, p. 367-380), faz uma longa lista de filmes do “Cinema do Diabo”. Na introdução de seu livro, onde discute o seu próprio procedimento de pesquisa, afirma: “A cultura é um tecido riquíssimo, que precisamos examinar com a máxima atenção em todos os seus fios. (...) Lugar de destaque foi dado à sétima arte, reservatório imenso de formas e oficina permanente, em que se vêem incessantemente retocadas as tramas de nossas crenças” (MUCHEMBLED, 2001, p. 10, nota da p. 11). Interessante que enquanto no primeiro milênio “a arte quase não lhe dava espaço” (ibid., p. 19), hoje o demônio seja representado tantas vezes nas telas. (Sobre o demônio na literatura e pintura, Ribeiro Júnior no livro A Face Humana do Diabo (1997, p. 66-70) lista algumas obras). Mas qual é a razão pela qual uma figura tão antiga está tão presente em nossos dias? No filme “O Advogado do Diabo” (1997), o personagem interpretado por Al Pacino afirma: “O século XX foi todo meu”. Para Luther Link, professor da Universidade de Aoyama Gakuin, em Tóquio, autor de "O Diabo - a máscara sem rosto" (citado na reportagem à epígrafe): "O diabo é presente agora pela mesma razão que o foi por séculos. Explicar o mal, casos como o de uma criança que mata outra, é uma dor de cabeça que ninguém quer. Talvez falar que o criminoso teve uma infância difícil seja uma resposta mais comum hoje, mas para a Igreja e todos nós, o diabo ainda é a explicação mais fácil." (BRAGA, 2001, p. 3). A teologia liberal negou ao diabo qualquer prestígio, encarando-o como uma mera forma de falar, uma metáfora. Num dos filmes da série Hellraiser (Hellraiser III – Hellon Earth (1992)), uma das personagens entra na igreja correndo e busca a ajuda do padre dizendo está sendo perseguida por demônios. O padre responde que ela se acalmasse que os demônios são apenas uma metáfora. A essa altura, a igreja é invadida por um vento forte e os vitrais se quebram. Ela responde ao padre: “Explique isso para ele”. Essa cena mostra como, a despeito das posições da igreja e da teologia, as pessoas continuaram a acreditar no Diabo, só que agora estavam órfãos contra ele, pois não podiam contar com a igreja. (Atribui-se a Charles Baudelaire a seguinte frase: “A maior astúcia do Diabo é nos persuadir de que ele não existe”. Mas, como observou o personagem protagonista do filme O Ritual, é difícil quando a falta de provas é a prova de que o Diabo existe). Mas a teologia liberal não conseguiu tirar o diabo de cena! O filme O Ritual (2011), que conta a experiência do padre Michael, mostra um pouco da atitude da Igreja Católica em frente ao crescente número de queixas de atuação demoníaca que lhe chegavam dos seus fiéis: o treinamento de novos exorcistas. O sentimento de muitos é permanecermos vivendo num “mundo tenebroso”. A expressão é do apóstolo Paulo que a utiliza em Efésios 6,12. “Este Mundo Tenebroso” também é título do romance de Frank Peretti. O romance é responsável pela popularização dos conceitos da batalha espiritual: no livro, uma pequena comunidade de cristãos embrenha-se na luta espiritual contra espíritos malignos locais, “dominadores deste mundo tenebroso” que pretendem dominar cidades dos Estados Unidos. Se Hollywood fizesse um filme desse livro, acredito que seria um sucesso cinematográfico! Já no final do filme Exorcismo de Emily Rose, o padre Moore lê a carta deixada por Emily, onde ela afirma que as pessoas não podem duvidar da existência de Deus por ela ter-lhes mostrado o poder do diabo. Adilson Schultz (2005, p. 204), na sua tese Deus Está Presente, O Diabo Está No Meio, considerava que “Deus parece ser anunciado para que o mal seja denunciado”. A lógica dos exorcismos parece ser inversa: denunciar o mal antes de anunciar o bem. Sine diabolo nullus Deus. Fazendo referência a alguns filmes, nota-se como ‘o diabo é pop’. Num desses, O Exorcista, vemos a angústia de uma mãe ao ver sua filha passar por vários exames sem que nenhuma doença seja diagnosticada. A conclusão a que ela chega, no contexto do filme, parece óbvia: é uma possessão. Uma grande angústia do doente é não saber o seu diagnóstico, não saber contra o que luta. É necessário ‘dar um nome aos bois’. Mas o que mais me motiva a escrever essas linhas é ter ido ontem assistir a estreia do filme Instrumentos Mortais – Cidade dos Ossos (trailer acima), dirigido por Harald Zwart e baseado no primeiro livro da série escrita por Cassandra Clare. O filme vale a pena pela ação e pelo triângulo amoroso disfuncional em que a protagonista Clary se vê envolvida com seu sempre-amigo Simon e pelo caçador de sombras Jace Wayland (o Jace também é desejado pelo seu melhor amigo, o caçador Alec, que, no entanto, não consegue assumir sua paixão homossexual). E o filme preenche um espaço que foi deixado pelo fim da série Crepúsculo e não conseguiu ser preenchido pelo filme A Hospedeira, também baseado em um livro da Stephen Meyer. (Aliás, A Hospedeira é para mim bem melhor do que qualquer filme da série Crepúsculo, por ser uma ficção científica que nos leva a questionar o sentido da humanidade, por nos confrontar com um planeta Terra dominado por alienígenas que parecem muito mais desenvolvidos moralmente do que nós, mas a moralidade sem humanidade é uma miséria!). Em Instrumentos Mortais – Cidade dos Ossos a mãe de Clary é sequestrada por demônios. “Quando sua mãe Jocelyn (Lena Headey) é atacada e levada de sua casa em Nova York por um demônio, Clary Fray (Lily Collins), uma garota aparentemente normal, sai em sua busca em uma Nova York cheia de demônios, magos, fadas, lobisomens e outros seres fantásticos. Para ajudá-la, Clary conta com os amigos Simon (Robert Sheehan) e o caçador de demônios Jace Wayland (Jamie Campbell Bower), mas acaba se envolvendo também em uma complicada paixão” (veja sinopse). Os demônios buscam o Cálice Mortal escondido pela mãe de Clary. No desdobrar do filme, Clary descobre também que sua vizinha Dorothea é uma bruxa, o amigo de sua mãe Luke é um lobisomem, e Magnus, o cliente que comprava os quadros de sua mãe é um poderoso feiticeiro que com um feitiço lhe bloqueara a memória, para que ela não se lembrasse de que ela não é uma garota tão normal quanto imaginava. Simon, seu melhor amigo, é capturado por vampiros. Fiquei esperando ele se transformar, mas isso, acho, vai ficar para a continuação da série. Para ler: BRAGA, João Ximenes. O Diabo é Pop. In: O GLOBO, 03/01/2001, segundo caderno p. 1 e 3. Disponível em: Acesso em: 14/03/2011. MUCHEMBLED, Robert. Uma História do Diabo: séculos XII – XX. Rio de Janeiro: Bom Texto, 2001. PERETTI, Frank E. Este Mundo Tenebroso. 2ª Impressão. São Paulo: Editora Vida, Julho/1990. RIBEIRO JÚNIOR, João. A Face Humana do Diabo. São Paulo: Master Books, 1997. SCHULTZ, Aldino. Deus Está Presente – O Diabo Está No Meio: o protestantismo e as estruturas teológicas do imaginário religioso brasileiro. Tese de doutorado. São Leopoldo: EST, 2005.